MANIFESTO CONTRA O DESERTO VERDE E A FAVOR DA VIDA

      A Rede Alerta Contra o Deserto Verde, uma articulação que envolve mais de 100 entidades dos movimentos sociais dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro, vem através deste, se manifestar sobre:

    a) o desastre sócio-ambiental causado nos últimos 35 anos pela monocultura de eucalipto e pinus,integrado aos complexos siderúrgico e de celulose, atingindo diversos ecossistemas e populações de nosso território, empobrecendo nossa diversidade biológica, social e cultural, causando expropriação, desemprego, êxodo e fome;

    b) a necessidade de outro modelo de geração e divisão de riquezas e de ocupação de nosso território, que respeite e coloque como protagonista as populações rurais e o interesse da sociedade brasileira e não do capital global.

      Desde 1.500, o Brasil tem colocado seus recursos naturais e o trabalho de seu povo a servico da exportacão de riquezas para os países chamados desenvolvidos. A modernizacao no campo, desde a decadas de 60 e 70, radicalizou a implantação das monoculturas. Dentre elas, as monoculturas de árvores, em especial de eucalipto e pinus (que não são florestas), talvez tenham sido as de maior impacto socioambiental nas regiões Jequitinhonha, Vale do Aço, Norte e Central de Minas, sul da Bahia e norte do Espirito Santo, com a implantação predatória de complexos dos setores siderúrgicos e de celulose. Esse impacto, criou uma identidade comum entre populações indígenas, quilombolas e camponesas diretamente impactadas - os atingidos pela monocultura do eucalipto -, gente que sempre perdeu nos 500 anos de Brasil, em detrimento de grupos capitalistas que engordam seus lucros a custa do sangue e da expropriação das populações tradicionais e dos trabalhadores brasileiros e da degradação de nossos ecossistemas, antes ricos em biodiversidade e água, hoje secos e empobrecidos, transformando-se em desertos verdes.

      No último período de governo neoliberal da era FHC, esse desastre foi legitimado e intensificado, seguindo os interesses do capital envolvido nesses poderosos complexos, embora alguns avanços legais em termos de direitos dos povos tradicionais e da importância da agricultura familiar, tenham feito um contraponto a esse processo devastador.

      Causa-nos espanto, entretanto, a postura do atual governo Lula, que carregava a esperança desse povo oprimido nesses 500 anos, de resgatar a cidadania sempre negada e de começar a construir um modelo de desenvolvimento democrático, que permitisse reorientar a apropriação e o uso de nosso território, no rumo da inclusão, da justiça e da sustentabilidade.

      Esse governo (assim como alguns governos estaduais) vem se submtendo aos interesses oligárquicos desses complexos, destinando enormes quantidades de recursos via BNDES, Ministerio do Meio Ambiente (PNF - Plano Nacional de Florestas) e sendo complacente com a falácia dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, incentivados pelo Banco Mundial (PCF – Fundo Piloto de Cabono), que legitima a poluição dos países desenvolvidos através da criação de cotas de carbono, que transformam a fotossíntese (dádiva da natureza) em mercadoria privada do comércio global. Usa-se um pretexto ambiental para disseminar as monoculturas de árvores, geradoras do desastre sociombiental acima relatado.

      Para as populações tradicionais e entidades componentes da Rede Deserto Verde, não cabe apenas negociar limites e condicionantes aos excessos do setor de monocultura de árvores. Os licenciamentos ambientais e os selos verdes só têm aprofundado as desigualdades socioambientias. O modelo por inteiro está comprometido com a lógica excludente do latifúndio de exportação, se apropriando de órgãos públicos e se legitimando através de certificações não participativas, nem independentes. Ao contrário do atual ordenamento monocultor do território, propomos um novo modelo agrícola e agrário, onde as prioridades possam ser reorientadas para a Reforma Agraria, a Agroecologia, a Segurança Alimentar e a defesa das Florestas, Cerrados e de seus povos tradicionais. Somente um novo modelo de desenvolvimento pode garantir a diminuição das desigualdades socioambientais no campo e de seus efeitos colaterais nos centros urbanos.

      Neste sentido, a Rede reafirma que monoculturas não são florestas e que as populações atingidas reivindicam deste governo a criação de políticas públicas que recuperem esse passivo socioambiental desastroso e incentivem ações que fortaleçam nossas diversidades biológicas, culturais e agroecológicas.

Outras Cartas
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