Manifesto das Mulheres Camponesas
Via Campesina - Brasil
À II Conferência Mundial da Reforma Agrária e
Desenvolvimento Rural - FAO

      Somos mulheres Camponesas, filhas desta terra brasileira, que há 500 anos vem sendo regada com suor, sangue e muito trabalho de tantas gerações de mulheres e homens de diferentes etnias. Mesmo com todas as lutas de resistência dos povos indígenas, negros e brancos pobres, nosso país continua sendo um território para estração de riquezas que alimentam os lucros de grandes grupos capitalistas. O Brasil está longe de ser uma nação livre e soberana.

      Neste 8 de março, durante a realização desta II Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, inspiradas pela história de mulheres do mundo inteiro que morreram na luta pela vida, nos manifestamos contra todas as formas de violência e exploração que sofremos no Brasil, como parte do povo pobre, como camponesas e como mulheres. E sobretudo, reafirmamos o compromisso com a luta por uma sociedade socialista, sem desigualdades de classe, gênero e etnia.

      Para os capitalistas, a terra, as águas, as sementes, o ar, as matas são recursos que devem ser explorados conforme seus interesses econômicos. Para nós, camponesas e camponeses, estes elementosda natureza são a base da vida, são riquezas que não tem preço, por isso não podem ser mercantilizadas. Em nome do desenvolvimento, do progresso e da modernidade, o capitalismo avança sobre o mundo desrespeitandolimites, leis, colocando em risco a vida de todos os seres vivos, inclusive da humanidade.

      As empresas capitalistas, com conivência da maioria dos governos, transformaram a agricultura num negócio, no agronegócio, e se apoderaram de nossas riquezas naturais, de nosso território utilizando-os como mercadorias descartáveis e converteu nossa população em "mão-de-obra barata" para ser explorada, além de utilizar o trabalho escravo em várias regiões do Brasil.

      Marchamos rumo a Conferencia Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR) porque :

      1. Somos contra o domínio autoritário de empresas multinacionais e as políticas dos bancos e instituições internacionais, (especialmente: Organização Mundial do Comércio - OMC, Banco Mundial - BIRD, Fundo Monetário internacional - FMI e Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID) assumidas pela maioria dos governos do mundo, que transformam nossos países em servos do processo de acumulação de capital e globalizam cada vez mais a pobreza, principalmente entre mulheres e crianças.

      2. Exigimos Reformas Agrárias Integrais, que sirvam de base para a construção da soberania alimentar dos países . A produção agrícola deve ser orientada pelas necessidades e pelos hábitos culturais de cada povo, não pelas metas de lucro de meia dúzia de grupos multinacionais.

      3. Somos contra os desertos verdes, as enormes plantações de eucalipto, acácia e pinus para celulose, que cobrem milhares de hectares no Brasil e na América Latina. Só no estado do Rio Grande do Sul já são 200 mil hectares de eucalipto. Onde o deserto verde avança a biodiversidade é destruída, os solos deterioram, os rios secam, sem contar a enorme poluição gerada pelas fábricas de celulose que contaminam o ar, as águas e ameaçam a saúde humana.

      No Brasil as empresas que controlam o deserto verde têm, total apoio do governo para implantar fábricas de celulose e ampliar o plantio de madeiras. Nos últimos 3 anos só a Aracruz celulose, que tem cerca de 250 mil hectares plantados com eucalipto no Brasil

      * Porto Alegre, 8 de março de 2006.

Outras Cartas
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