Enquanto os eucaliptos crescem as pessoas despertam
Foi bonito de ver a participação da população na Audiência Pública realizada em 28/03/2007. Audiência esta que seria fechada segundo o deputado Nelson Harter.
Na véspera do evento o Núcleo Amigos da Terra recebeu um ofício via e-mail inibindo a participação da população, sob o argumento que a audiência seria somente para a Comissão de Meio Ambiente, setores empresariais interessados, técnicos da FEPAM e, para se fazer de democrático, a AGAPAN.
Como gato escaldado tem medo d'água desconsideramos a mensagem emitida. É que no ano passado foi informado sobre a realização de uma Audiência Pública para tratar da situação da Stora Enso no estado. Logo, a notícia era de que não haveria a Audiência. Não fomos, mas a Audiência ocorreu. No ano passado esteve presente toda uma comitiva da metade sul. O encaminhamento foi para redução da faixa de fronteira e alteração da Lei Federal que versa sobre o tema da segurança nacional, a fim de que a empresa pudesse legalizar suas terras.
Desta vez foi diferente. Com faixas, mudas nativas e vontade de participar do processo de decisão sobre o futuro do estado, estudantes, ambientalistas e cidadãs(os), lotaram o Plenarinho da Assembléia Legislativa.
Após muita embromação para matar tempo e deixar a discussão que estava na pauta para depois, a Audiência iniciou com a apresentação pela FEPAM do Zoneamento para Silvicultura. Seguiram-se o depoimento de seis entidades e depois falaram os deputados. O público não falou pelo adiantado da hora e porque estava contemplado nas falas anteriores e manifestações.
A apresentação de 40 minutos do Zoneamento evidenciou que o trabalho técnico realizado levou em consideração diversos aspectos ambientais e culturais do estado. O próximo encaminhamento é enviar para o CONSEMA, onde será analisado.
Cada coisa em seu lugar
O governo não gostou do documento. De maneira autoritária a Secretaria do Meio Ambiente do Estado formou um grupo, composto por empresários para refazer o documento antes de enviar ao CONSEMA.
Cada coisa em seu lugar. O que entendem os empresários sobre o trabalho técnico realizado? Para ser deputad@ e político não precisa curso nem estudo, precisa um bom latim e, em geral, muita falsidade. Os mesmos quesitos servem para os cargos de confiança no governo.
Políticos semeiam a discórdia
Atualmente quem se opõe ao projeto de pólo de celulose no Rio Grande do Sul é chamado de "ideológico", mesmo conhecendo a própria legislação ambiental, as leis em geral e sobretudo por ter ética.
A audiência evidenciou quem é ideológico. Em discurso, o deputado Nelson Marchesan disse que não entende nada do assunto. O deputado Alceu Moreira disse que eles (os deputados) não poderiam ficar de um lado com a pressão dos "plantadores de árvores" e de outro com "xiitas ideológicos".
A ausência de respeito ilustra a forma com que os deputados, representantes do povo, tratam da questão. Desprovidos de ética, de respeito, de conhecimento de causa, vislumbram somente os numerários e alimentam a discórdia na população.
O avanço das monoculturas de soja para alimentar os carrões, das monoculturas de eucalipto para papel higiênico, tudo para o "primeiro mundo". Das mega-hidrelétricas para energia de exportação. Tudo isso está sendo construído sob a lógica destrutiva do capital. Quem contesta é ideológico.
Poderíamos chamá-los de "corruptos fisiológicos", mas nossa base de argumentação é bem maior. É inadmissível aceitar este tipo de argumento raso.
Em Brasília a população negra e indígena tem sido atacada. Triste é saber que o próprio Presidente declarou que as populações tradicionais e as questões ambientais, portanto ambientalistas, atravancam o crescimento do país.
O resultado da discórdia e da divisão da população já tem se evidenciado no Rio Grande do Sul, quando alguns moradores da metade sul sentem medo e aversão em conversar com os ambientalistas. É disseminada a falsa idéia de que o movimento ambientalista é "coordenado" por organizações estrangeiras que não querem que o Brasil se desenvolva.
Que democracia é esta?
Vivemos em um estado democrático? Como podem alguns setores da sociedade, interessados economicamente, alterar um documento legítimo que foi realizado por setor competente do próprio governo? Com que direito?
A sociedade tem o direito de saber do zoneamento. Tem o direito à informação e à participação nos processos decisórios. O zoneamento deveria agora ser apresentado para a sociedade, precedido de encontros que informem os riscos das monoculturas de árvores e das fábricas poluentes.
Os plantios devem parar até que este processo seja concluído.
Muitos hectares estão plantados com monoculturas arbóreas, mas outros tantos não estão. O próprio Termo de Ajustamento de Conduta firmado e vencido em 2006, previa a retirada de árvores que estivessem em áreas impróprias. E agora nada será feito?
O conhecimento gera responsabilidade. Esta discussão deve estar em cada rincão do estado, em cada boteco de esquina. Não podemos correr o risco de que a sociedade desperte na sombra dos eucaliptos.
PoA, 30/03/2007.
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