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28/10/2005 "Os impactos da expansão das áreas de 'reflorestamentos': mitos, probabilidades e realidades" foi o tema discutido na tarde de ontem, em Porto Alegre. O Professor Buckup alertou que o Pinus prolifera-se até em áreas de mata atlântica. Porto Alegre, RS - Perda da biodiversidade e de espécies endêmicas, descaracterização de paisagem e cultural, comprometimento da água e contaminação de florestas nativas são alguns dos prejuízos do aumento de áreas plantadas de árvores exóticas em discussão ontem (27/10) no seminário "Os impactos da Expansão das Monoculturas de Árvores no RS: contra a substituição do campo nativo pela plantação de eucaliptos e Pinus, na Faculdade de Economia da UFRGS". Promovido pelo Núcleo Amigos da Terra/Brasil, o evento propiciou a troca de informações no primeiro debate público sobre as implicações do megaprojeto do governo estadual de quase triplicar a área plantada atual com espécies exóticas no Rio Grande do Sul. Em 10 anos, a projeção é passar dos 400 mil hectares a 1 milhão de hectares desses plantios, especialmente no bioma dos Campos Sulinos. Doutor em Ciências Naturais, o Professor Ludwig Buckup, do Instituto de Biociências (UFRGS), ressaltou que a proposta segue num descompasso com a própria Agenda 21 brasileira na qual constam os impactos sociais e ambientais negativos da atividade, e é proposta a criação de corredores ecológicos na região do pampa. "O Brasil precisa garantir a demanda e aumentar a produção de madeira. O problema não é este, mas como isso será feito", avalia. Segundo Buckup, situações de invasão de exóticas em florestas nativas são documentadas e visíveis no Brasil e no Exterior. Ele cita diversos casos, entre eles, a disseminação em parques da África, do estado do Paraná, e do Rio Grande do Sul com pinus proliferando-se, inclusive, na Mata Atlântica, um dos cinco biomas mais ricos em espécies e ameaçado do planeta, que faz parte da lista de Hotspots da organização Conservation Internacional. Os Campos Sulinos, explica, possuem espécies de fauna e flora endêmicas – somente ocorrem naquele bioma – e em risco de desaparecimento. "São seis gêneros de cactos e bromeliáceas endêmicos e 11 espécies de mamíferos raros ou ameaçados de extinção", informa. A necessidade de proteção das áreas naturais é ratificada em pesquisas de outras universidades, como no projeto Mosaico, desenvolvido pela Unisinos. O estudo comparativo da biodiversidade de aves na floresta nativa e nas plantações comerciais na unidade de conservação de uso misto, em São Francisco de Paula, revelou que sete espécies de aves em extinção dependem exclusivamente da área nativa para viver. Adotando a defesa dos plantios comerciais de exóticas, o engenheiro florestal, Solon Longhi, doutor em Ciências Florestais e professor da Faculdade de Engenharia Florestal, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) apresentou como vantagens entre outros a substituição ao uso de madeira das floresta nativas, a geração de empregos e o aumento do estoque de carbono. "Qualquer tipo de floresta beneficia o solo", afirmou. "A monocultura de árvores como planejado é muito violenta e superior a criação de gado", contestou Buckup. A questão hídrica é outro enfoque considerado prioritário na discussão pelos palestrantes. Espécies como o eucalipto, explicou Buckup, retiram grande quantidade de água do solo. Suas raízes são muito profundas e podem chegar, inclusive, aos lençóis freáticos. Matas ciliares também estão sendo comprometidas com a fixação de pinus, espécie que se alastra facilmente, nas margens dos rios. A palestrante Estefanía Damboriarena, da Prefeitura Municipal de Bagé / RS, ponderou que projetos dessa natureza perpassam muitos governos e devem ser embasados tecnicamente e sua discussão apropriada pela população. Sobre os recursos hídricos, lembrou que Bagé tem historicamente problemas com o abastecimento de água. Alguns dados encerraram posições discordantes entre os palestrantes. Longhi disse desconhecer a atribuída retirada de água pelos eucaliptos, mencionada por Buckup. A informação, no entanto, foi consenso pelos participantes, entre eles, Winfridus Overbeek, da Rede Alerta Contra o Deserto Verde (FASE), do Espírito Santo, que participou do painel da manhã, e relatou entre os problemas das comunidades atingidas por esse tipo de cultivo a posterior dificuldade de abastecimento. O Estado, informa Overbeek, tem cerca de 200 mil hectares cultivados de monoculturas de arbóreas. Geração de empregos Outro dado conflitante foi sobre a geração de empregos que foi questionado pelos participantes. Longhi sustentou a estimativa de um emprego permanente para cada 15 hectares de plantações arbóreas que difere de recente publicação sobre o assunto, lançada em maio, pelo Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, no qual aponta com base no quadro funcional de duas fábricas de celulose no Espírito Santo, respectivamente, 122 e 183 hectares para a geração de um emprego direto. "Tenho a impressão de estar nadando de poncho contra corrente" No intervalo do seminário aberto ao público, a proprietária de uma tradicional fazenda no município de Piratini/RS, Ana Camila Caringi, exemplificou em relato veemente e emocionado as implicações para a comunidade. Ela está tendo que conviver com aplicações de agrotóxicos a apenas 23 metros de sua residência e com a alteração de toda beleza cênica da fazenda ao lado que já pertenceu a seus ancestrais, comprada para plantio de exóticas. "Meu caseiro e familiares tiveram vômitos e dor de cabeça e tiveram atendimento médico. Na Fepam, me disseram que, como não existe lei para aplicação de agrotóxicos (glifosato), poderiam ter colocado rente a cerca da minha propriedade", conta. Ela denuncia que o cultivo está sendo feito até mesmo sobre áreas de banhados. "Tenho a impressão de estar nadando de poncho contra corrente", disse, citando as palavras de seu caseiro.
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Texto da Jornalista Sandra Damiani, especial para a EcoAgência de Notícias www.ecoagencia.com.br |
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www.defesabiogaucha.org/noticias/not28102005.htm