A FARSA DE PAPEL

      Alguns protagonistas do bilionário negócio da celulose lembram farsantes teatrais. O melodrama e a demagogia são exageradamente presentes em sua retórica. Nem fazem falta as indumentárias. O circo é montado a cada novo encontro, enquanto que no mundo real tudo continua igual: as terras continuam sendo compradas pelas empresas de celulose; a legislação é desobedecida e flexibilizada; campanhas políticas são financiadas pelas empresas do ramo. Ao término de cada espetáculo é, no máximo, organizado um novo grupo de trabalho para prosseguir com as discussões e a fantasia. Os rebeldes são perseguidos e até encarcerados.

      Sob a velha égide demagoga de geração de emprego e fim da pobreza o projeto de pólo de celulose avança sobre o Rio Grande do Sul. Qualquer ser humano pensante percebe que esta égide é uma farsa, mas propaganda e marketing sempre exerceram fascínio. Tristes são as conseqüencias quando a ilusão acaba. Outras possibilidades de trabalho são destruídas para benefício desta celulose de exportação. Acaba a pecuária, a agricultura, o turismo. É a política do governo, imutável.

      Para facilitar as transações foram afastados do conselho estadual do meio ambiente (CONSEMA) os que perturbavam. Não foi homologada a nominata das ONGs indicadas pela Assembléia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente, APEDEMA, desrespeitando a Resolução CONSEMA Nº 107 de setembro de 2005, que determina que ONGs ambientalistas devem ser indicadas pela APEDEMA. Foi dado assento para uma ONG do setor da celulose "Amigos da Floresta" na vaga que deveria ser para uma ONG ambientalista. A legitimidade da Resolução Nº 107 foi posta em cheque pelo próprio governador em exercício, Germano Rigotto.

      O Ministério Público Estadual diz garantir o cumprimento da legislação. Mas, como tempo é dinheiro, as empresas tem pressa. Mesmo sem estar pronto o zoneamento ecológico-econômico, instrumento que mapeará as áreas do estado, a compra de terra continua sendo permitida. Como o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental, "levam muito tempo", é aceito o Relatório de Impacto simplificado. É assinado pela empresa um "Termo de Ajustamento de Conduta" antes mesmo do plantio, para autorizar o plantio agora, antes dos estudos. Tudo para viabilizar a implantação do empreendimento, a qualquer custo.

      No espetáculo da celulose, tentam convencer que não existem motivos para preocupação, que o mais importante é não afugentar este tipo de investimento no estado. As áreas hoje utilizadas para plantio das árvores eram de pecuária ou agricultura. O que não importa para os que pensam que o alimento se compra no supermercado e o leite não vem da vaca, mas da caixinha. Os municípios que antes arrecadavam impostos com a atividade de agropecuária, não arrecadam impostos da venda de produto (madeira). Os farsantes dizem que basta confiar no poder público que estamos seguros. No próximo ato será ensinada a dança da chuva. Espera-se que chova três vezes mais para compensar a quantidade d’água evapotranspirada pelos eucaliptos.

     

     

      Ana Paula Fagundes – 11 de maio de 2006

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